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    Les lettres de mon père, de Agnès Limbos

    "O pai humanista e colonizador

    Les Lettres de Mon Père, que ocupa este fim-de-semana o Teatro Carlos Alberto, é outra das propostas deste 37.º FIMP (que, também este fim-desemana, leva ainda Shrimp Tales, da aclamada companhia neerlandesa Hotel Modern, ao Campo Alegre), e é outro espectáculo em que a criadora contracena com o seu duplo em forma de boneca. Agnès Limbos, experiente figura do teatro de objectos europeu, revisita as mais de 45 cartas que recebeu do pai em 1960, quando ela era uma criança de oito anos a viver na Bélgica natal com o tio padre, à guarda dela e dos seus quatro irmãos (dois mais velhos, dois mais novos), e ele estava no Congo Belga, a ensinar jovens educadores que trabalhavam com crianças congolesas desalojadas “a ler, a dinamizar jogos infantis e a construir pequenos refúgios, coisas desse género”.

    Diz-nos a própria Agnès que na altura lidou muito mal com a distância que então a separava dos pais (“Isto foi mesmo na altura da independência do Congo, em 1960, um período de muitos conflitos. Foi uma experiência traumática, achava genuinamente que ficaria órfã”) e que hoje reconhece facilmente nas cartas do pai uma visão profundamente paternalista daquele que era, naquele momento, o mundo à sua volta.

    “Ele era uma pessoa muito simpática. E aquilo que fez, fê-lo com a convicção de que estava a fazer o bem — comparo-o a um escuteiro idealista, empenhado em mudar o mundo e em ser bom para aqueles à sua volta. Mas havia no seu pensamento aquilo que havia no de tantas outras pessoas brancas no período colonial”, diz Agnès, que releu as cartas do pai pouco antes de ser entrevistada por Margarida Calafate Ribeiro e Fátima da Cruz Rodrigues para o livro Des-cobrir a Europa: Filhos de Impérios e Pós-Memórias Europeias (2022).

    Diz-lhes: “O meu pai era um humanista, mas para ele um africano era um ser inferior que ele deveria ajudar. Reproduz [nas cartas] esta visão dos negros que bebem álcool, fumam erva, roubam, não são iguais aos brancos. E nós crescemos com estas imagens. É muito complexo, porque por um lado era um humanista, mas era também um colonizador. Ele impunha a sua cultura, a sua maneira de pensar.”

    Margarida e Fátima, diz Agnès, incentivá-la-iam a fazer algo a partir das cartas do pai." (...)

    in ípsilon | Daniel Dias | Sexta-feira 10 Outubro 2025

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